Nossa História: Conheça relatos de pessoas que batalharam pelo desenvolvimento do município que está completando 248 anos

Escrito em 14/08/2019
Imprensa

Uma casa azul logo no início da rua sete de setembro. No interior da residência, um senhor risonho vem atender a porta com um roupão comprido, símbolo de simplicidade de um ser brilhante, poético e já prefeito de Apiaí. João Cristino dos Santos, também conhecido como seu Janguito, aos 94 anos de idade descreve o município que nasceu, cresceu e administrou, quando Apiaí ainda estava para completar o bicentenário, há 48 anos. “Quando eu era criança Apiaí era uma rua, tinha a quinze de novembro, a 21 de abril até a casa do Dr. Luiz e o calçadão (rua Tenente Coronel Almeida) a cidade terminava onde está a Pernambucanas, o resto era tudo mato”, comenta sorrindo, ao ouvir um pedido de lembrança.

Alguns anos se passaram, e em 1969 seu Janguito foi eleito prefeito de Apiaí, com 85% dos votos, sendo o único candidato. Nesse período, o prefeito foi um dos responsáveis por apoiar a instalação da fábrica que resultou em centenas de oportunidade de emprego para os apiaienses e moradores dos municípios vizinhos, a Camargo Correa, agora conhecida como Intercement.  “Seu Sebastião Camargo tinha uma indústria de pó calcário no bairro Vieira, ele conhecia o terreno do município e viu que o calcário daqui tinha 3% de magnésio, então era especial para cimento. Depois disso, ele inventou de querer montar uma fábrica de cimento aqui, mas o pessoal não queria saber por causa da poluição”, lembra.

O poder público e os moradores de Apiaí tinham medo da instalação da fábrica devido informações que circulavam sobre a Companhia Brasileira de Cimento Portland Perus, localizada no distrito de Perus, na zona noroeste de São Paulo. Neste período, o distrito ficou conhecido por estar coberto de pó, devido a produção de cimento, e todos tinham medo que o mesmo acontecesse em Apiaí. “Muitos tinham medo que isso acontecesse aqui, ninguém queria, e seu Sebastião Camargo não tinha apoio. Em casos como esse, se não tem apoio da prefeitura, não tem nada”, afirma.

Quando seu Janguito foi eleito como prefeito se dirigiu até o Palácio do Governo do Estado, para conversar com o governador, na época Abreu Sodré, que estava apoiando a implantação da fábrica. O caso era que, com a fábrica produzindo em Apiaí, além da geração de empregos, o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) do município também seria maior, dessa forma, Apiaí também conseguiria desenvolver um ramal ferroviário e um teleférico.

De um lado, o medo da população sobre a poluição, de outro, o desenvolvimento econômico, se a prefeitura não apoiasse, a fábrica não se instalaria aqui. Para convencer as autoridades e o povo, seu Janguito fez três audiências públicas: uma na câmara, prefeitura e outra pública, com ele havia informações e dados que comprovavam que Apiaí não sofreria com poluição e que a quantidade de pó seria muito pequena, e não como a de Perus, como todos temiam. “Eu com muito custo procurei convencer as autoridades e a população de que não haveria esse perigo, tanto é que faz mais de 40 anos que ela está funcionando e a cidade está bem”, afirma.

No entanto, este não foi o único obstáculo para o desenvolvimento municipal. A área que hoje pertence à fábrica, na época abrigava moradias. Então, além de convencer o público de que era um bom investimento, o prefeito precisou lidar com as pessoas que não queriam vender o terreno para a empresa e também para construir o ramal ferroviário e teleférico. “O governador ofereceu a ajuda de dois advogados que foram comigo de proprietário em proprietário, todo o percurso da ferrovia e do teleférico, para convencer as pessoas que concedesse pra fábrica a permissão pra passagem do teleférico. Assim, aos que não aceitaram vender, foi declarado utilidade pública e interesse econômico social e desapropriado”.

Quando a fábrica começou a ser construída, seu Janguito conta que chegou a ter mais de mil e quinhentos funcionários. “            O ICMS de Apiaí, a cidade desenvolveu de uma maneira extraordinária. Nesse período, tinha mais de mil e quinhentos operários trabalhando, a cidade recebeu a faixa do ramal ferroviário e teleférico, isso com apoio do estado. A cidade e a região se desenvolveram em função disso, deu emprego pra muita gente, foi um fator extraordinário”, lembra.

O mandato do Seu Janguito encerrou em 1972, vinte e um anos depois ele voltou como vice-prefeito do Dr. Luiz Alencar. Hoje, aos 94 anos, o ex-prefeito passou de administrador, para vice, provedor do Hospital Dr. Adhemar de Barros, de uma vida que já testemunhou como caminhoneiro, professor, presbítero, ajudante de juiz, músico e poeta. O olhar na porta na hora da despedida comprova o coração de um homem que até hoje faz tanto por Apiaí.

Mas a história não acaba aqui. Há alguns minutos apenas de distância, na rua Augusto do Amaral, próximo à praça central, uma casa com pedras ilustra a moradia de Carlos Ribeiro, conhecido no município como “o português”. Na porta, um senhor de 90 anos, acompanhado pela esposa Victalina Martins, abre a porta num gesto carinhoso cumprimenta e oferece para entrar. Seu Carlos, com uma boina portuguesa, sua marca registrada, e um olhar saudoso conta como chegou em Apiaí, em 1950.

Carlos Ribeiro nasceu em Fontainhas, Freguesia de Mioma, concelho de Satão e distrito de Vizeu, em Portugal. Quando pequeno, guardava as ovelhas que eram levadas para o pasto todos os dias e andava 5 km para ir até a escola. Estudou até o terceiro ano e logo precisou abandonar os estudos por conta do trabalho. Aos nove anos se despediu do pai, Antônio Ribeiro, que decidiu vir para o Brasil atrás de melhores oportunidades e voltou onze anos depois, quando o filho já estava completando 20 anos. “Nós tínhamos algumas terras em Portugal, onde fazíamos plantações, mas as lavouras lá são muito trabalhosas, poucos lugares tinham água corrente, então precisávamos buscar no poço, no braço”, lembra Carlos.

A família também trabalhava para outros agricultores e aos poucos, Carlos Ribeiro precisou se dedicar a outros serviços, durante um tempo trabalhou com o avô como moleiro, uma profissão antiga ligada à moedura de cereais, moía milho e centeio. Aos 18 anos começou a trabalhar em uma mina de chumbo, há 6 km de onde morava. Em maio de 1950 foi convidado pelo padrinho, Manoel Augusto a vir para o Brasil, nessa época ele deveria se inscrever para o exército, mas acabou chegando no país em outubro do mesmo ano, foram onze dias de viagem. “Naquele tempo nós íamos de navio, viajamos onze dias e onze noites, só via água e céu. Quando chegamos no Rio de Janeiro que eu vi terra, que alegria, barbaridade! Em Apiaí, desci no Hotel Apiaí com uma mala pequena, tinha só um carro e um caminhão na cidade”, conta sorrindo.

Em Apiaí, Carlos Ribeiro trabalhou durante dois anos carregando mercadorias entre os municípios vizinhos e a capital. Em maio de 1952 começou a trabalhar no Posto Shell, localizado na rua Primeiro de maio, que pertencia ao padrinho. “Eu tomava conta do posto, dormia lá porque tinha que atender algumas vezes de noite. Em 1964 aluguei e comprei o estoque, depois fiquei de sócio, toquei o posto até 1988”, lembra.

Durante todo o tempo que morou em Apiaí, seu Carlos investiu em prédios, casas e apartamentos, investimentos que se transformaram em pontos comerciais e geraram centenas de emprego, tanto com a mão de obra para a construção, quanto oportunidade de empreendimento para comerciantes. Em 1958, se casou com Victalina Martins, que na época morava no distrito de Itaoca, seu Carlos comenta que chegou a empregar cunhados e sobrinhos. “Houve uma época que eu só empreguei parentes, foram cerca de doze pessoas da família Martins, mas houve uma época que eu cheguei a ter 15 funcionários”, comenta.

Em julho de 2001, Carlos foi considerado exemplo de empresário no jornal Apiaí Diz, o título destacava “Um português de sucesso em Apiaí”. A matéria chegou a contar toda a trajetória do homem que hoje está há mais tempo em Apiaí, do que passou na sua terra natal. Ao ser questionado sobre sua escolha, Carlos afirma sorrindo que foi a melhor que fez. “A melhor escolha que fiz foi vir para o Brasil, Apiaí, aqui chove bastante no verão e no inverno, em Portugal não chove nada, se não regar a plantação não tem alimento”.

Esses são apenas dois exemplos de pessoas que trabalharam pelo desenvolvimento econômico de Apiaí, que fizeram a diferença. Desse modo, na comemoração dos 248 anos de emancipação política, gostaríamos de agradecer todos que fizeram e fazem parte da história da nossa cidade. Pessoas que auxiliaram no desenvolvimento econômico, cultural, turístico e religioso. Que acreditaram nesse município que começou tão pequeno e que aos poucos está se expandindo e sendo reconhecido mundo afora. Aqueles que nasceram, cresceram e se criaram aqui e em um momento da vida, precisaram sair para crescer. Pessoas que levaram consigo a manhã coberta de neblina, o cheiro da mata que nos protege, o sol acanhado que por vezes insiste em não sair, e parte do coração da cidade, que certamente chora toda vez que perde um filho, mas que também acolhe todos que decidiram vir de longe para aqui construir vida.

Parabéns, Apiaí!      

Malu Martins – Assessoria de Imprensa